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Não crê no homem, mas acredita na humanidade

[ terça-feira, 6 de outubro de 2009 | 1 comentários ]


Competem dois ventos.

De uma sacola plástica, vale-se o primeiro;

de uma página de jornal, o segundo.


Encarnado em uma tampa Coca-Cola,

figura transversal aos que pelejam,

um terceiro, linha de chegada, aguarda epilético.

Esgotado o embate,

organizar-se-á o segundo,

cuja arbitragem ficará a cargo do vento derrotado;

cabendo

ao vencedor

duelar com o que os bandeirava,

em rua subseqüente e na carne de outra coisa -

a nota C do exame, o fio da barba algodão,

o grão de areia, a bituca lançada pela mulher,

o endereço do melhor dentista de São Paulo,

a rabiola viúva, a embalagem vazia, etc.,

a mosca quase

morta.

E assim, asfalto pós asfalto, até que,

em forma una e indivisa,

os ventos acordem com o ideal de,

por outras bandas,

as árvores destruí-las e,

suas sementes,

espalhá-las,

assinando ventania, tão

somente, ventania.

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Menos calendário que metafísica

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O céu de hoje, o que o tinge, irmã, é algo místico;

sempre o é, mas esse é o ovo de dentro do ovo;

os outros seis dias são apenas ovos

desprovidos de uma segunda casca.

Desse ovo, abstrato, provém

uma, nua de átomos, gema, que

ao fundir-se às cores, altera-as

sem ao menos modificá-las.

Vá à feira e certifique-se.

Um morango,

experimentando-o, notarás

que tal substância

possui consórcio também

com o odor e o paladar –

leve uma dúzia da fruta e

(nobre experiência)

saboreie outra amanhã.

Agonizar agora não seria como

agonizar em uma quinta;

a dor seria tão pungente quanto;

mas quinta, deveras,

tudo é átomo: não há brechas.

Hoje elas são possíveis -

talvez porque Deus dormira.

Repare no andar deste carroceiro:

É igual e diferente; paradoxalmente exato;

tão óbvio que não causa dúvidas

nem suscita questões.

Considere nosso ignóbil cão:

Tenta, em vão, como o fizera ontem e

certamente o fará amanhã, morder o rabo;

não terá sucesso em sua empresa,

mas, como por feitiço da data

o faz de forma distinta.

Mas o que engorda o jornal

não vem desse ovo, irmã:

Homem procura casal; Fluminense,

desfalcado de sua maior estrela,

enfrenta o líder em casa; Sinfonia para o povo

no parque do Ibirapuera;

Caderno Infantil; Aluga-se chácara para

natal e ano novo; "Mestres da

Literatura Portuguesa" - penúltimo

fascículo.

Ao passo que, Domingo, irmã,

é menos calendário que metafísica.

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Quando chove para tudo (tudo pára)

[ quarta-feira, 2 de setembro de 2009 | 3 comentários ]


Tem mão de São Pedro

nesse pé d’agua –

e os cabelos do dedo

o pulso em disparada

e o punho sedento

e a unha encravada

e o caminho do tempo

nos rabiscos da palma


Quando chove para tudo

Para tudo tudo pára

São Paulo pára para Pedro

Pára Pedro Pedro Pára.


E diga assim, me diga à toa:

com quantos caos

se faz uma garoa?


Tem mão de São Pedro

nesse trovão

que encoraja o medo

a assustar distração

de acabar escondendo

menos o rabo do cão

abaixo do aconchego

aonde deita o colchão.


Quando chove para tudo

Para tudo tudo pára

Só quem não pára é Pedro

Pára Pedro Pedro pára


E diga assim, me diga à toa:

com quantos caos

se faz uma garoa?

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Do amor que dedicamos aos bichos

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Do amor que dedicamos aos bichos

- por serem crianças e loucos e

não saberem de nada (e,

com efeito: detestamos os sábios ) -

aproveita-se meu gato e, na calada da noite,

emite a senha para que eu lhe encha o prato.


O faço. E

ao abrir a janela para

que a fumaça disperse

o felino escapa de encontro ao cio.


Nesse jogo de cartas marcadas,

fumarei (ainda que não suporte

o cheiro da fumaça)

quando o larápio quiser, pois

do amor que dedicamos aos bichos

- por serem crianças e loucos -

nasce o desejo: da idosa abandonada

viver um dia mais;

das crianças doentes sorrirem e resistirem ao Câncer;

de

o ambulante que vende cigarros

falsificados,

na calçada paralela,

falar de futebol comigo,

que nem gosto de futebol.

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Cortesia da maré

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Um ser exótico, cortesia da maré,

emite um som humano,

proibido para humanos

em locais públicos.


Dissimulando banhar-se, um mendigo passa a seu lado.


Duas cabeças,

possíveis sessenta e quatro

dentes,

uma única língua,

um único sexo.


Findado o espetáculo, tal ser se transforma

em duas pessoas, das quais, a de voz mais afeminada,

pergunta-me

“Tem um cigarro?”.


Algo que, trêmulo e extasiado,

não responderei até

alguma onda

prenha de meu sêmen

desmaiar na areia.

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Esverdeados anos

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Os soldadinhos de chumbo

camuflados na velharia da casa

planejam contra seu mau humor.


Via rádio, comunicam-se com outros

(objetos de seus amigos de infância)

escondidos pelo mundo.


Forjaram um plano, deveras:

Escoltá-los, um a um,à força, à praça

aonde se esconderam seus

esverdeados anos.


Lá, ao som furioso do relógio, despertará –

o fogo do café lhe fará forte,

ao adentrar sua garganta

junto do seco das coisas finitas.

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Nesse estranho mundo cão (sete vidas)

[ terça-feira, 25 de agosto de 2009 | 3 comentários ]
Foi motoqueiro quem tirou
minha primeira vida
A segunda, perdi de velho
Na terceira: suicida
A quarta: envenenamento
(lembrar me dói cabeça e barriga)
Uma garota levou a quinta
(ataca a mãe pra ver se quica)
Por fim um anjo me levou na cesta
(Portas do céu: quanta gentileza!)

Só me resta uma vida
mas por você eu morreria
Faça gato e sapato dessa ninharia

Por um banho de língua
entro até na carrocinha
Eu encaro vira-latas por você, gatinha

Nesse estranho mundo cão
quem tem menos mais arrisca
Tivesse uma ao invés de seis
sairia desse cisca-cisca?

Rato no prato
Ração no pote
Quentes abraços
Sete filhotes
Supermercado
em lixos nobres
E ainda grátis
nesse pacote
as garras desse
gato da sorte

Só me resta uma vida
mas por você eu morreria
Eu luto, eu pego, eu mato
ratazana e companhia

Por mais uma lambida
vendo até a alma minha
Reencarno e te entrego as outras sete, gatinha.
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Metalinguagem

[ quarta-feira, 12 de agosto de 2009 | 1 comentários ]

Escrevo, a lápis, cavalo: ca-va-lo.
Apago a palavra, poupando-lhe a sílaba primeira.

A essa, adiciono três: pa-ce-te.

Aos que, porventura lerem,
esse meu papiro (o qual pregarei
na porta de alguma igreja) imaginarão
um capacete e um confuso -
a outra palavra do cartaz.

Mas não trata-se de um trivial capacete:
um terço dele veio a cavalo;
e esse, valendo-se de análogo processo,
tem sua parte de canalha: ca-na-lha.

As beatas, o jornaleiro, ou o padre, ou
um indigente a coçar o carvão do bigode
com o frio esmeralda do topo da garrafa,
deveriam pensar, ao encararem meu manifesto
em algo como (ou no que quiserem):

Um capacete que relincha e dá coices no próprio dono;
um capacete cuja viseira são enormes dentes,
e neles há adesivos de baixo calão;
um capacete que defeca a granel, causando acidentes
em autódromos, avenidas e estacionamentos;
um capacete com ferraduras da sorte a um preço exorbitante.

Talvez eu esteja confuso;
mas não da confusão que o leitor deduz:
de outra,
a qual nascera
da palavra "contemplação".


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Paralelo universo

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O universo para lê-lo
universo paralelo
para lê-lo una o verso ao léu
paralelo universo

Una o verso para lê-lo ao léu
universo paralelo

O universo paralelo
universo para lê-lo
paralelo una o verso ao léu
para lê-lo universo

Una o verso para lê-lo ao léu
universo paralelo

Ao léu o sal, o céu, o siu
do psiu ...
ao léu o sol e o sul
de todo azul... ditando azul...
de todo blue: todos os blues

o que nem tudo que é ouro reluz
o que nem mudo ou em coro traduz

Ao léu o hall, o hell, o riu
do tardio...
o roll do roquenroll
e o ru

di-men-tar

e as estréias que não pude estar
e as estrelas que não pude star

e o beijo que eu nunca kiss
e o beijo que eunuco quis.
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Poesia de cabeceira

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Poema para meu 43º aniversário - Charles Bukowski

terminar sozinho
no túmulo de um quarto
sem cigarros
ou vinho ―

apenas uma luz elétrica
e uma barriga estática,
grisalho,
e feliz de ainda
ocupar esse espaço.

... de manhã cedo
eles já estão nas ruas
fazendo dinheiro:
juízes, carpinteiros,
médicos, encanadores,
jornaleiros, policiais,
barbeiros, lavadores de carro,
dentistas, floristas,
garçonetes, cozinheiros,
motoristas de táxi...

e você se vira
para o lado esquerdo
para apanhar o sol
nas costas
e longe dos seus olhos.

Tradução de Lauro Marques. »
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Veja esse som

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Tom Zé - O amor é um rock



"O amor é um Rock, a personalidade dele é um pagode"
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Um vaga lume da minha janela

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O inseto mortal afronta o infinito das trevas.
Se, de piscar em piscar, David concorda com elas;
não o faz por medo, angústia ou persuasão:
é solidária a Golias - a ínfima luz deste efêmero grão.

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O Éden e o Orvalho

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Filha bastarda do ménage à trois
(a saber: álcool - carência - DJ),
nascera, nesta boate,
a intimidade entre estranhos:
Narciso a esperar, da manhã,
o orvalho
aonde mergulhará a imagem
de sucesso do seu fracasso.

Carrega em seu DNA
primeiros últimos beijos
(essa navalha que estraçalha românticos
ao desprender camaleônicos sutiãs);
eternos amigos de poucas horas que
nem se lembrarão o quão
geniais e medíocres estão
logo o Éden se transforme
no ganha pão das faxineiras; e
como não,
algo de Carpe Diem: a última: dança,
beijo, molestação autorizada, aperto de mãos,
manifestação de simpatia ao próximo,
porre, abraço, copulação,
vontade de explodir em luz e som :
algo que nossas avós fariam igual,
desprovidas de saias tão longas -
velhas costuras de naftalina
da onipresente coersão social.

Bebemos uma nova alma
sonhando hipnotizar
aquele que nos hipnotiza
com seu aparato anti lual, minha ninfeta -
por nossos Buarques Mutantes,
nossos Riders on the storm e nossa
mulher de Los Angeles
no último volume
a estilhaçar as vidraças
de todo e qualquer ouvido.

E, engraçado, seres tão sincera,
em seu hálito de menta e cabelo maçã,
em seus olhos pré crepúsculo sem chuva,
com alguém tão
novo quanto desengonçado,
um ser de quem pouco sabe do que jamais importará,
mas, as mesmas vertigens
sempre sentira e sentirá:
desde o dia em que nascera
até o outro que nascerá.


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Poesia também é letra

| ]
Sem saia, sem cera , censura - Tom Zé


É a rima, a rima ditada por lei, por decreto
É a múmia que mama no feto
É a luz que se filtra nas grutas
O insosso temperando as frutas

O medo, o medo tem que censurar para criar
A parceria da pedra com a vidraça
Do elefante com a graça, com a taça
A parceria da bala de canhão, canhão, canhão
Com a bolinha de sabão.

A censura, ela gosta da arte
Mas é a Medusa retocando a musa
A censura, ela ama a arte
Mas é como a fera penteando a bela
A censura, ela morre de amor pela arte
Mas é a enxada
Acarinhando a fada
A censura, ela adora a fragrância da arte
Mas é o machado
Entre as flores do prado
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De noite é debaixo da lua

[ segunda-feira, 4 de maio de 2009 | ]
Moro no segundo segundo.
No porvir. No que há de ser.
E sua falta de curiosidade
me enche dela e de você.

Moro no seu mundo, meu mundo! –
e mal queres meu bem querer?
Moro na velocidade
da ansiedade de antever.

Moro onde sou bem-vindo.
Moro onde há chave na porta.
Moro com quem brindo.
Moro com quem me importa -

me importa de outro país
(cujo mandante é um tanto faz tanto fiz).

Preciso te dar
meu novo endereço
é abaixo do sol
eu sempre me esqueço
de dar referência:

de noite é
debaixo da lua
que fica minha rua.

Eu moro com os meus ás.
e moro com os meus ais
e moro com os meus pais
e moro com o meu país.

Antes que eu me esqueça:
Eu moro na casa
do chapéu: a cabeça.

Preciso te dar
meu novo endereço
é abaixo do sol
eu sempre me esqueço
de dar referência:

de noite é
debaixo da lua
que fica minha rua.
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Enquanto dormem

[ sábado, 2 de maio de 2009 | ]
Encontrar-se-ão,
trêmulos e cabisbaixos,
com a barba por fazer,
em sociedades secretas
da paulicéia desvairada.

Planejarão contra o homem que
por sobre o sexo deles tem
urinado com certa freqüência
enquanto dormem.

Um tostão de palestra sobre tal pessoa:
Cheirando à aguardente,
comungado ao tropeço,
adentra a casa da vítima
valendo-se da chave que
a mesma lhe doara;
com ares de palhaço enche
bexigas, as quais,
em forma de cachorros bipolares,
ameaçam a dona da casa e
distraem, abanando os rabos e
lambendo-lhes o rosto,
os pequenos que jamais
à praça os levariam;
finalizando o ritual – não
antes de, os quadrúpedes, estourá-los -
afasta-se doze passos do desacordado
e, sobre ele, urina.

Por isso, reunir-se-ão, os convivas
da inicial estrofe:
Permutarão forças pelo sonho
de estarem despertos,
armados e espertos,
quando o mambembe
da máscara de espelho
aparecer.

Nesse momento, expulsá-lo, alivia,
por um dia mais –
só por hoje;
assassiná-lo, condena, à liberdade perpétua.
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