Segunda-feira, 4 de Maio de 2009

De noite é debaixo da lua

Moro no segundo segundo.
No porvir. No que há de ser.
E sua falta de curiosidade
me enche dela e de você.

Moro no seu mundo, meu mundo! –
e mal queres meu bem querer?
Moro na velocidade
da ansiedade de antever.

Moro onde sou bem-vindo.
Moro onde há chave na porta.
Moro com quem brindo.
Moro com quem me importa -

me importa de outro país
(cujo mandante é um tanto faz tanto fiz).

Preciso te dar
meu novo endereço
é abaixo do sol
eu sempre me esqueço
de dar referência:

de noite é
debaixo da lua
que fica minha rua.

Eu moro com os meus ás.
e moro com os meus ais
e moro com os meus pais
e moro com o meu país.

Antes que eu me esqueça:
Eu moro na casa
do chapéu: a cabeça.

Preciso te dar
meu novo endereço
é abaixo do sol
eu sempre me esqueço
de dar referência:

de noite é
debaixo da lua
que fica minha rua.

Sábado, 2 de Maio de 2009

Enquanto dormem

Encontrar-se-ão,
trêmulos e cabisbaixos,
com a barba por fazer,
em sociedades secretas
da paulicéia desvairada.

Planejarão contra o homem que
por sobre o sexo deles tem
urinado com certa freqüência
enquanto dormem.

Um tostão de palestra sobre tal pessoa:
Cheirando à aguardente,
comungado ao tropeço,
adentra a casa da vítima
valendo-se da chave que
a mesma lhe doara;
com ares de palhaço enche
bexigas, as quais,
em forma de cachorros bipolares,
ameaçam a dona da casa e
distraem, abanando os rabos e
lambendo-lhes o rosto,
os pequenos que jamais
à praça os levariam;
finalizando o ritual – não
antes de, os quadrúpedes, estourá-los -
afasta-se doze passos do desacordado
e, sobre ele, urina.

Por isso, reunir-se-ão, os convivas
da inicial estrofe:
Permutarão forças pelo sonho
de estarem despertos,
armados e espertos,
quando o mambembe
da máscara de espelho
aparecer.

Nesse momento, expulsá-lo, alivia,
por um dia mais –
só por hoje;
assassiná-lo, condena, à liberdade perpétua.

O céu da boca

O céu da boca é finito.
Preto quando a gente cala
poema, bronca, grito;
Vermelho quando a gente fala.

A língua... a língua é o chão
que sobre o céu da boca chove.
Terremoto? Há: Emoção ! –
Quando a sua sobre a minha se move...

Bazar Arigatô

Boteco do Zé Pedro.
Padaria Tida.
Supermercado Mineira.
Bazar Arigatô.
Carrefour.
Drogaria Pirituba.
McDonald’s.
Auto Mecânica Tico.

Escritores de poucas metas,
publicados devidamente.
Dar nome as coisas nos torna poetas,
feito os pais que deram o nome a gente.

Quinta-feira, 5 de Março de 2009

Nesse estranho mundo cão

Foi motoqueiro quem tirou
minha primeira vida
A segunda, perdi de velho
Na terceira: suicida

A quarta: envenenamento
(lembrar me dói cabeça e barriga)
Uma garota levou a quinta
(ataca a mãe pra ver se quica)
Por fim um anjo me levou na cesta
(Portas do céu: quanta gentileza!)

Só me resta uma vida
mas por você eu morreria
Faça gato e sapato dessa ninharia

Por um banho de língua
entro até na carrocinha
Eu encaro vira-latas por você, gatinha

Nesse estranho mundo cão
quem tem menos mais arrisca
Tivesse uma ao invés de seis
sairia desse cisca-cisca?

Rato no prato
Ração no pote
Quentes abraços
Sete filhotes
Supermercado
em lixos nobres
E ainda grátis
nesse pacote
as garras desse
gato da sorte

Só me resta uma vida
mas por você eu morreria
Eu luto, eu pego, eu mato
ratazana e companhia

Por mais uma lambida
vendo até a alma minha
Reencarno e te entrego as outras sete, gatinha.

Poema Branco

A primeira, contra o vento ;
a segunda, a favor. Uma o pensa,
lazarento ; e a outra, esplendor.

A amante do fogo,
tal qual
a amante da água
-a que se acende e
a que se ascende -
igualmente
batizadas :

vela.

Quarta-feira, 17 de Dezembro de 2008

Aonde a coruja dorme

O ditador imita Hitler
pelo tempo de um apito -
inicia-se a partida.

No tabuleiro de xadrez esmeralda
brotam as primeiras jogadas.

Uns vão de unha;
outros palavrões, amendoins –
a multidão mastiga.

Esfera pergunta: és fera? -
de pé em pé, de ouvido a ouvido.

Um torcedor cala o rádio,
para cantar o galo
do treinador careca.

Apenas a tiete despreza
o bem-me-quer da bola.

Agasalhado e de luvas,
o arqueiro destoa
do resto do estádio.

O auxiliar é o único sério
a tremular bandeira.

Na barriga da mulata grávida
o recém-nascido brasileiro
chuta com estilo.

A rede é o véu da noiva trave
a esperar o gol de letra.

Aonde a coruja dorme:
Pesadelo de goleiros,
sonho de artilheiros.

Gol: metade do estádio tira
palavras da boca da outra metade.

Poesia Circense

Homem bala balão
munição
explosão

mil pirralhos no circo
um anão
(criançancião)

Dois pi raio no círculo
do canhão

Pipoca aplauso na mão
redenção
não em vão

Mil pirralhos no circo
Alusãoà ilusão

Dois pi raio no círculo
do leão

Para o acro bata bata palmas
para o palha asso asso bie
e o mági como como pode:
ele tirava
um coelho
ou era eu
que tirava um bode?

O dom e a dor vêm de Deus
Deus vem de domador
Ombros do mundo: os meus
pois sou poeta ator

Por escrever poesia
sou trapezista palhaço
entre o chicote e a magia
do domador do espaço
Será que Deus chicotearia
fosse um João sem braço?

Por escrever poesia
sou bailarino mágico
no picadeiro dos dias
entre o aplauso e o trágico
mas Deus é só alegria
na queda é cama de elástico.

Sexta-feira, 24 de Outubro de 2008

Quando ela olha pela janela

Quando ela olha pela janela,
vê cavalos e o sorveteiro;
até queria um de morango,
mas hoje não tem dinheiro.

Quando ela olha pela janela,
vê borboleta virar trovão.
Quase se assusta quando o baú
se torna carvão.

Quando ela olha pela janela,
vê a vizinha - baixinha, mulata-
corneando o pobre marido
com um astronauta.

Quando ela olha pela janela,
vê os cegos das cinco e meia
voltarem do tiro ao alvo
com uma sereia.

Quando ela olha pela janela,
vê ciganas com dentes de ouro,
gnomos que fumam cannabis,
asas em botas de couro.

Quando ela olha pela janela,
vê o molejo estranho de Anita,
pedindo esmolas esmolas a troco
da canção bonita.

Ela é jovem e esquizofrênica,
vê dinossauros e a Cinderela.
De real só o seu delírio:
no seu barraco nem tem janela.

Dom Quixote de La Mancha

Menos moinhos que gigantes
de um Cervantes nigromante
cujo ventre trouxe à luz
a fina flor dos heróis andantes

(o "Vossa Mercê" de Sancho Pança):
Dom Quixote de La Mancha

e a fina flor da destruição:
o botaréu de Micomicão
Mais bruxaria que loucura
de um Cervantes barbeiro e cura
cujo ventre trouxe à luz
a fina flor da formosura

(a inimiga de um Quixote desgostoso):
Dulcinéia de Toboso

e a fina flor dos galopantes:
Rocinante alucinante

Mais rei que vendeiro
de um Cervantes faceiro
cujo ventre trouxe à luz
a fina flor dos escudeiros

(o "ignóbil criatura" do La Mancha):
Bom e velho Sancho Pança

e a fina flor da ilusão:
o feiticeiro Frestão

Maior elogio da deusa Loucura,
sou o seu humilde vassalo;
Cavaleiro da Triste Figura:
insano é não reverenciá-lo

Saíremos, junto de Pança
(nunca sem antes calá-lo),
ainde que chamem de ovelha, senhor,
o meu possante cavalo.

Quarta-feira, 17 de Setembro de 2008

Poetas do Tietê

Não trata-se de crime.

Partimos da premissa de que,
possui ainda validade
uma nota de dinheiro
desprovida de um pequeno pedaço.

Estratégicamente,
retiramos, cirurgicamente,
de diversas notas,
pequenas partes que,
unidas na fase subsequente,
conceberão uma nova cédula.

Com o lucro obtido, nós,
os " Poetas do Tietê",
financiamos nossos projetos culturais:
Sequestros de poetisas visuais decadentes,
cujo cativeiro será
o - alcunha sugerida pela vítima um-
"Segundo Éden";
Realização de fimes cults
(orçamentados em Hollywood)
sobre Poesia Concreta;
O bimestral "Dilúvio Literário" -
quando livros póstumos
despenhados de nossos helicópteros
(o Torquatinho e o Boca do Inferno),
aterrissam, de pára-quedas,
nas favelas que cheiram à elite
e nas elites que cheiram à favela
da Paulicéia Desvairada;
Recrutamento de poetas-bomba
dispostos a dilacerarem
citações geniais
(psicodélicamente tatauadas)
da marginália setentista -
sem nunca ferirem ninguém
além
do suicídio;
etc.

Arriscando-nos duas vezes,
somos Rimbaud sem moedas,
recolocando o livro, após dissecá-lo,
no exato local de onde o furtara -
por amor à arte, à criatividade e à vida:
somos os Poetas do Tietê.

O nome da rua

Durante uma tempestade,
escolher, aleatóriamente,
um ônibus na Avenida Paulista.

Contar os passageiros:
três, descer no terceiro ponto;
sete, no sétimo;dez ou mais,
no décimo ponto.

Observar quantas pessoas
abandonarão o transporte
em minha companhia;
multiplicar o número dessas
(trata-se de um ritual noturno)
ao total de estrelas que constatarei.

O produto dessa sentença indicará
a quantidade de vezes que gritarei,
a plenos pulmões,
o nome da rua aondeminha loucura pousará.

Sábado, 9 de Agosto de 2008

Útero e algoz

Costurei um vudu
à sua imagem e semelhança
(para uso caseiro)
com a agulha
(útero e algoz)
que encontrei no palheiro

Por um erro de cálculo
saíste melhor e a encomenda
de uma multinacional
não tardou a chegar

O meu, sucesso de vendas
em toda a América Latina,
há de ter
concorrente à altura.

Poesia de cabeceira

Poema para meu 43º aniversário - Charles Bukowski

terminar sozinho
no túmulo de um quarto
sem cigarros
ou vinho ―

apenas uma luz elétrica
e uma barriga estática,
grisalho,
e feliz de ainda
ocupar esse espaço.

... de manhã cedo
eles já estão nas ruas
fazendo dinheiro:
juízes, carpinteiros,
médicos, encanadores,
jornaleiros, policiais,
barbeiros, lavadores de carro,
dentistas, floristas,
garçonetes, cozinheiros,
motoristas de táxi...

e você se vira
para o lado esquerdo
para apanhar o sol
nas costas
e longe dos seus olhos.

Tradução de Lauro Marques.

Poesia também é letra

Sem saia, sem cera , censura - Tom Zé


É a rima, a rima ditada por lei, por decreto
É a múmia que mama no feto
É a luz que se filtra nas grutas
O insosso temperando as frutas

O medo, o medo tem que censurar para criar
A parceria da pedra com a vidraça
Do elefante com a graça, com a taça
A parceria da bala de canhão, canhão, canhão
Com a bolinha de sabão.

A censura, ela gosta da arte
Mas é a Medusa retocando a musa
A censura, ela ama a arte
Mas é como a fera penteando a bela
A censura, ela morre de amor pela arte
Mas é a enxada
Acarinhando a fada
A censura, ela adora a fragrância da arte
Mas é o machado
Entre as flores do prado

Tato

O muro é o aperto de mãos com o vizinho.
A fechadura é o piparote no ladrão.
Meu quarto é a mão que me faz carinho.
Aponta o caminho da rua o portão.

A sala de estar aplaude a visita.
Fuck-you para o sereno: contrato.
A janela faz figas por uma manhã bonita.
Minha casa, meus senhores, tem tato.

Quarta-feira, 30 de Julho de 2008

Poesia também é letra

Desce - Arnaldo Antunes

desce do trono, rainha
desce do seu pedestal
de que te vale a riqueza sozinha,
enquanto é carnaval?

desce do sono, princesa
deixa o seu cetro rolar
de que adianta haver tanta beleza
se não se pode tocar?

hoje você vai ser minha
desce do cartão postal
não é o altar que te faz mais divina
deus também desce do céu

desce das suas alturas
desce da nuvem, meu bem
porque não deixa de tanta frescura
e vem para a rua também?

Poesia de cabeceira

Se os tubarões fossem homens - Bertold Brecht


Se os tubarões fossem homens, eles seriam mais gentís com os peixes pequenos. Se os tubarões fossem homens, eles fariam construir resistentes caixas do mar, para os peixes pequenos com todos os tipos de alimentos dentro, tanto vegetais, quanto animais. Eles cuidariam para que as caixas tivessem água sempre renovada e adotariam todas as providências sanitárias cabíveis se por exemplo um peixinho ferisse a barbatana, imediatamente ele faria uma atadura a fim de que não moressem antes do tempo. Para que os peixinhos não ficassem tristonhos, eles dariam cá e lá uma festa aquática, pois os peixes alegres tem gosto melhor que os tristonhos.

Naturalmente também haveria escolas nas grandes caixas, nessas aulas os peixinhos aprenderiam como nadar para a guela dos tubarões. Eles aprenderiam, por exemplo a usar a geografia, a fim de encontrar os grandes tubarões, deitados preguiçosamente por aí. Aula principal seria naturalmente a formação moral dos peixinhos. Eles seriam ensinados de que o ato mais grandioso e mais belo é o sacrifício alegre de um peixinho, e que todos eles deveriam acreditar nos tubarões, sobretudo quando esses dizem que velam pelo belo futuro dos peixinhos. Se encucaria nos peixinhos que esse futuro só estaria garantido se aprendessem a obediência. Antes de tudo os peixinhos deveriam guardar-se antes de qualquer inclinação baixa, materialista, egoísta e marxista. E denunciaria imediatamente os tubarões se qualquer deles manifestasse essas inclinações.

Se os tubarões fossem homens, eles naturalmente fariam guerra entre si a fim de conquistar caixas de peixes e peixinhos estrangeiros.As guerras seriam conduzidas pelos seus próprios peixinhos. Eles ensinariam os peixinhos que, entre os peixinhos e outros tubarões existem gigantescas diferenças. Eles anunciariam que os peixinhos são reconhecidamente mudos e calam nas mais diferentes línguas, sendo assim impossível que entendam um ao outro. Cada peixinho que na guerra matasse alguns peixinhos inimigos da outra língua silenciosos, seria condecorado com uma pequena ordem das algas e receberia o título de herói.

Se os tubarões fossem homens, haveria entre eles naturalmente também uma arte, haveria belos quadros, nos quais os dentes dos tubarões seriam pintados em vistosas cores e suas guelas seriam representadas como inocentes parques de recreio, nas quais se poderia brincar magnificamente. Os teatros do fundo do mar mostrariam como os valorosos peixinhos nadam entusiasmados para as guelas dos tubarões.A música seria tão bela, tão bela, que os peixinhos sob seus acordes e a orquestra na frente, entrariam em massa para as guelas dos tubarões sonhadores e possuídos pelos mais agradáveis pensamentos. Também haveria uma religião ali.

Se os tubarões fossem homens, eles ensinariam essa religião. E só na barriga dos tubarões é que começaria verdadeiramente a vida. Ademais, se os tubarões fossem homens, também acabaria a igualdade que hoje existe entre os peixinhos, alguns deles obteriam cargos e seriam postos acima dos outros. Os que fossem um pouquinho maiores poderiam inclusive comer os menores, isso só seria agradável aos tubarões, pois eles mesmos obteriam assim mais constantemente maiores bocados para devorar. E os peixinhos maiores que deteriam os cargos valeriam pela ordem entre os peixinhos para que estes chegassem a ser, professores, oficiais, engenheiros da construção de caixas e assim por diante.

Curto e grosso, só então haveria civilização no mar, se os tubarões fossem homens.

Segunda-feira, 28 de Julho de 2008

Trocar película com os outros mortos

Durante o marasmo da eternidade,
em cinemas que, quando vivos,
chamávamos de estrelas,
assistimos, cronológicamente,
há todos os nossos sonhos.

Findado o último deles,
é nos permitido
trocar película com os outros mortos.

Prefiro sempre as produções
dos recém-nascidos:
desprovidas do conceito de morte,
nos afasta da horrenda sensação de queda-
essa que, nem a força que a criara,
deveras suporta,
e por isso, em nossa fase terrena,
acordava-nos, implorando socorro.

Serão esses filmes,
eternamente,
nossa única distração.

O sexo dos gatos

Gatos fazem sexo no chuveiro.
Cada um no seu chuveiro,sobre o telhado.
Gata no cio emite um cheiro -
sem sentido para um gato castrado.
Brincam de brigar primeiro,
seguindo o que os genes lhes tem passado.
Enquanto rolam rola um berreiro
estridente e desafinado.
Gatos fazem sexo no chuveiro.
Cada um no seu chuveiro,sobre o telhado.
Gata no cio quer parceiro,
no ócio quer seu eu sossegado.
Gato quer o tempo inteiro:
no chuveiro,sobre o abandonado -
de fevereiro a fevereiro;
em dia santo, domingo e feriado.

Quarta-feira, 23 de Julho de 2008

Onze primaveras (Karma) ou Alma de artista (o suicídio do homem do saco)

Resolveu - após onze longas
e depressivas primaveras -
sair de casa
(a única que possuía
fogão e geladeira
naquele vilarejo rústico).

Quis bater dama com os outros velhos.
O céu, lindo, sorria.

Inventou o xadrez enquanto esperava.
Taxado insano, retirou-se cabisbaixo.

Ancorou no bar - recinto em que
faz-se amigos pelo
tempo de
um porre e
por vezes
o tempo
de um cigarro - aonde
por descuido derramou
seu xarope de glicose
no conhaque de alcatrão
inventando assim
a Coca-Cola.

Acharam-lhe
- ele: o homem que inventou
o sabão em pó -
nojento.

Expulso a pontapés
pelos outro bêbados
parou só quando viu
um aglomerado de jovens.

Reinventou o futebol
em cinco passes mas
o segundo drible mágico
rendeu-lhe um cartão
vermelho.

Entre a primeira promessa (não inventar
nada, jamais)
e a segunda (tornar-se
um homem médio)
percebeu que ventava
muito e aquele
simpático sexagenário decidiu
- não antes de confessar-lhes
ter ninguém nesse mundo -
empinar pipa com as crianças.

Queria apenas meninar mas
os inventos não cessavam :
O pára-raio ao trovejar,
o avião quando a raia
desprendeu-se e
o suicídio após
os guris abandonarem a quem
a mãe ruiva do mais branco deles
denominou
``homem do saco``.

Seria enterrado como indigente se,
vinte minutos após sua morte,
não tivesse inventado a ressurreição.

O despertar dos guarda-chuvas negros

Escuto a música da rotina:
ao invés de guitarra, trovão;
a cama velha, uma buzina,
conversas distantes, um avião.

Minha respiração no contra-baixo.

Tendo em vista que é eterna
delimito-lhe o tempo:
iniciou-se com uma sirene.

A porta range.Garoa.Começo a tossir.

Batizarei-a "O despertar dos guarda-chuvas negros".

Para entendê-la
mantenho-me pedra:
palavras e gestos de pedra.

Terminá-la?
Sim, com estilo.

Minha dúvida espera a polícia,
mas baterá o martelo
caso outro avião
aconteça.